Uma amiga confessou que voltou a tomar Paxil pois não está dando conta do momento dela. Já tomou antes, "então tudo bem". Mas o negócio é que ela não é médica para julgar se esse é o medicamento adequado, se a posologia é adequada, e etc. Ela simplesmente tomou numa época da vida dela que ela identifica com a atual, tem em casa, e voltou a tomar. Ah, e ela é psicóloga. Sei o que muitos que estão lendo estão pensando...
Ela foi casada com um médico, e não é por ter tomado muita porra de médico que alguém consegue registro no CRM, e nem por dar aula de psicopatologia que alguém deve ou pode se automedicar. A percepção que temos de nós mesmas, na hora de escolher a medicação e o esquema de tratamento freqüentemente é distorcida. O pior é que ela entende racionalmente tudo o que eu digo e concorda, pois eu estou absolutamente correta nas minhas afirmações, e faço questão de ser absolutamente direta, e até grosseira, coisa que apenas uma amiga de mais de vinte anos de amizade e que realmente se importa com a outra pode fazer.
Quem não se importa respeita "tempos", se dá ao luxo a ser cheio de dedos, a se calar, a não se intrometer e chamar na chincha. Posso ter uma problema psiquiátrico, mas sou lúcida prá caramba! Mais do que a maioria das pessoas que conheço.
Não devemos tentar solucionar certos problemas sozinhos, nem repetir formulas passadas. Cada momento é único em nossa vida pois é composto de elementos diferentes. Nada nunca é exatamente igual, então o tratamento pode não ser igual. Nosso corpo muda, nossa carga muda (ai, meu D´us, termo de ST! Sai deste corpo que não te pertence!), e por aí vai. Na verdade nos iludimos quando achamos que controlamos alguma coisa. O fato dela não ter um diagnóstico não a coloca numa posição de prescindir do acompanhamento psiquiátrico para a escolha do tratamento medicamentoso adequado. O cara estuda anos, faz residência, especialização, prova para admissão em sociedade de especialistas apenas para isso. A questão não é a proteção à corporação médica, mas o reconhecimento de um saber que ela, psicóloga,ou psicanalista, não domina, e não domina mesmo!!!!!
Ado, ado, ado, cada um no seu quadrado. Ao admitir a necessidade do medicamento, uma pessoa deve admitir a necessidade da assistência do profissional. Há o receio do diagnóstico, da perda de controle da própria vida, e etc. Mas é o preço a pagar pelo tratamento que depois devolve o controle real sobre a própria vida, pois enquanto isso não acontece, a doença, atravéz dos sintomas é quem domina.
Eu não coloco a minha estrutura "obssessiva", "histérica", etc, pela proa, para me esconder de enfrentar as coisas, pois é possível andar dentro das estruturas, elas não são uma clausura. É característica do histérico colocar e alfinetar os recalques do neurótico? Pode ser, mas e daí? Neste sentido, uma vez tratados, somo mais próximos da lucidez do que neurótico que recalca tudo e coloca o escudo da normalidade excessiva. Pra mim isso é um papo besta do caralho.
Ninguém é feliz se escondendo de si mesmo.
Tia Val pontifica: nunca se automediquem, não importa que você seja um médico, um farmacêutico, enfermeiro, psiquiatra, psicólogo ou psicanalista. Quando ficar com o cú na seringa, procure um outro profissional, peça arrego, bata no tatame e enfrente o babado forte. É o mais racional e sensato a fazer, por mais fodão, poderoso, auto-controlado que você se ache, I got news for you, babe: vc é um merda como todo mundo. E isso é normal.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
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