terça-feira, 10 de novembro de 2009

Listas e mais listas...


Sou uma criatura de "listas". Listo as coisas que preciso fazer, as decisões que preciso tomar, os assuntos que preciso contemplar, enfim, eu faço um monte de listas. E eu posso segui-las ou não. Para falar a verdade elas acabam sendo um lembrete das coisas que eu não consigo fazer, e não das que eu consigo. O inverso também é verdadeiro. Tudo depende do meu estado de espírito.

Planilhas, orçamentos "na ponta do lápiz"... nossa! Essas coisas são o meu inferno astral! Pois eu subverto tudo e me sinto culpada depois. É uma merda, isso sim!

Para uma advogada, que é um ser que vive com prazos a cumprir, ter esse pequeno probleminha, é ter na verdade um problemão. Para uma pessoa de assuntos regulatórios, isso é um pouco menos complicado, pois ainda que tenhamos prazos, e são puta prazos, quando os chefes (sim, os chefes da gente, nóis é tudu índio por aqui) perguntam "para quando se espera o registro do produto tal?", não é mesmo possível dar uma resposta concreta, pois apesar de existirem prazos de peticionamento, coisas assim, o resto é nebuloso, depende de um monte de fatores que nem cartomantes e o papa podem responder com precisão!

Acho que é por isso que eu gosto tanto de regulação: eu posso ir manipulando as minhas listas sem me sentir culpada.

Ah, mas eu já fiz a minha lista de objetivos para o meu quadragésimo ano de vida! Tudo o que eu quero fazer antes de completar quarenta e um anos. E já estou começando a batalhar por cada um dos ítens! Sim senhores! Eu tenho trinta e nove mas já digo a todo mundo que tenho 40. Acho 39 uma coisa meio chata, é meio véspera, um troço meio nada, meio alguma coisa, mas a coisa mesmo ainda não é.

Fiz uma lista imensa! Fiz um objetivo geral e um monte de específicos. Um pouco como num pequeno projetinho de pesquisa, onde o Objeto soy yo, e os objetivos tem a ver com o que eu desejo para mim neste ano que marca uma fase importante para toda mulher - sou uma pós-balzaqueana de fato e de direito. Não sou uma escrava do casamento, do lar, da família, das convenções de uma sociedade que coloca na função doméstica e familiar da mulher seu maior peso. Percebo que eu me construí de uma forma diferente, bem peculiar e aceito isso numa boa. Amo meu filho, amo meu trabalho, amo minha vida acadêmica, tenho metas a atingir, tenho problemas a solucionar e formas de solucionar esses problemas. Tenho questões internas a enfrentar.

Ser sujeito das minhas orações( e o centro das minhas ações) tende a assustar os homens em geral, assim como os assusta ser uma mulher que diz na cara dura que não quer mais se casar e nem cuidar de outro homem que não seja o próprio filho. Namorar é bom demais, ter uma relação estável é muito gratificante: aturar ronco et coetera et al... Já coloquei dois para escanteio, tô virando "cereal killer" nesse negócio (frosty flakes style, dois conheceram a marca do meu pé na bunda deles, um depois de sete anos e outro depois de dois, e sem ser chifrada! isso de acordo com eles...) e até agora não achei um homem que valesse o custo-benefício de um casamento. Mas que namorar é bom demais, lá isso é!

Talvez eu esteja apenas envelhecendo rabugenta, e na minha lista está "não me permitir ficar ranzinza!", e não sei se conseguirei isso.

Nas minhas listas eu coloco sempre coisas fáceis misturadas com coisas difíceis. Não entendo bem a lógica disso; preciso refletir mais a respeito. Mas vejam só, alguns passos eu já estou adiantando, e meu aniversário de quarenta anos é só no dia dois de fevereiro de 2010! Já dá para ir começando uns dois ou três ítens agora, e um eu já matei!

Me lembrem de fazer o balanço geral em 3 de fevereiro de 2011,tá?

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Quem é a identidade secreta de quem?




Sério, este é um dos grandes enigmas da humanidade para mim: quem a identidade secreta de quem? Chico Xavier, Roy Orbinson ou Joey Ramone? É uma questão antiga, no entanto pertinente... afinal os três nunca estiveram no mesmo lugar ao mesmo tempo... hummm.... Preciso tomar meus remedinhos... rápido!

sábado, 7 de novembro de 2009

Faz uma semana que eu voltei para o Zyprexa e sinto que melhorei um pouco. Não é aquela coisa toda, mas melhorei sim. Não estou conseguindo trabalhar como deveria, mas ao menos dar aulas está no nível do factível, e eu resolvi colocar as coisas numa lista de tarefas e ir executando-as. O problema da Olanzapina para mim é que ela me rouba a memória para as coisas recentes, e eu me sinto um pouco perdida, então, se colocam pressão em mim por qualquer motivo é aí mesmo que eu travo e não consigo fazer mais nada. Eu começo a tremer, e a não raciocinar mais. Acontecem coisas estranhas como eu não me lembrar de onde deixei as coisas e ficar muito fula da vida comigo mesma. Fico frustrada, quero sair e comprar outras- quando são coisas materiais que podem ser repostas - mas nem sempre as coisas são tão simples. No final das contas eu apenas dou um tempo e espero que apareçam de novo, pois pode ser apareçam.

Além da olanza, eu dobrei a dose de topiramato, o que piora meu quadro cognitivo. Sim, estou a pagar um preço alto para me estabilizar, sair da mania ou quadro misto, para uma não-agitação a partir da qual eu possa me estabilizar e então subir aos poucos com a minha querida duloxetina. E haja análise!

Tudo isso porque eu não tinha dinheiro para os meus medicamentos, para a minha análise e julgava que as necessidades terapêuticas do meu filho vinham e vem em primeiro lugar. Mas se eu não estiver inteira e bem, eu não terei como ajudá-lo, não é? É como aquelas emergências em avião, quando o adulto responsável deve colocar a máscara de oxigênio em si mesmo primeiro e depois colocar a máscara na criança ou pessoa que está sob seus cuidados.

Estou sem paciência, mas ainda assim tentando ser produtiva na minha tormenta privada e ser construtiva: quitar débitos, regularizar algumas contas, negociar algumas coisas pendentes que podem me gerar custos, enfim, tentar liberar a minha cabeça de assuntos que me geram mais estresse, ou seja, me livrar de gatilhos estressores, os quais, no meu caso, tem um forte componente financeiro.

Falando assim até parece que o problema é o dinheiro por si só... mas não é. Quando eu pedi ajuda à família paterna do meu filho para o tratamento dele, não foi para me sobrar dinheiro, pois eu daria um jeito de arcar com a metade, mas por isto ser algo para além das coisas custeadas pela pensão, que na verdade é óbvio que não custeia todas as necessidades do moleque, eu invisto - e muito - nele! E o que eu encontrei dos meus interlocutores foi desprezo, mentiras, covardia, e arrogância. Liguei duas vezes para conversar sobre o tema, e senti a neurose familiar deles com toda a força. Minha mãe já ajuda em algumas coisas e então não há como ela ajudar. Seria injusto e ela não teria condições. Mas eles? Continuar pedindo passou a ser humilhação. Agora é tentar outras alternativas. Sea lo que quiera Diós que sea!

Mas minha situação com meu filho não anda nada boa. Eu preciso de silêncio e isolamento nesta fase e não estou encontrando nada neste sentido, e pelo contrário, vejo que ele tem sido vítima do próprio pai, da maneira como o pai procura manipular viciosamente contra mim!

Nestas horas eu fico pensando... como eu pude um dia amar aquele homem? Talvez isso me doa mais do que qualquer coisa. Não é ainda amar, mas pensar em como eu um dia consegui amar e tentar ter uma vida em comum.E eu só me ponho a pensar nisso para evitar que essa situação se repita!

Conversei com a terapeuta do meu filho e tentarei outras alternativas: sem tratamento ele não pode ficar. É uma questão de saúde do meu menino, dane-se o que o pai pensa, o que ele e a família dele fazem disso na cabeça deles. Acho mesmo é que ninguém ama mais meu filho do que eu, e sou eu quem convive com ele todos os dias, quem presta atenção das pequenas e nas grandes coisas. E é assim eu estando bem, eu estando em crise, tanto faz.

Meu dente está doendo, não consequi até agora resolver o problema desse maldito molar, e esse é um estressor violento. Minha meia-irmã me levará amanhã na clínica odontológica do primo dela. Hoje não consegui nem trabalhar, está tudo inchado de novo e eu me empanturrando de antiinflamatório. Mais uma coisa para me aborrecer! Meu medo de dentistas e essa legião de carniceiros que me fizeram ter medo de dentistas é que me fizeram estar nesta situação! Levarei meu filho comigo para ele ver como é ruim não tratar dos dentes direito prevenindo o aparecimento de cáries! Sim, é puro terrorismo! Não contra os dentistas (talvez um pouco sim...), mas a favor do trabalho preventivo (escovação, uso do fio dental, do enxagüatório oral adequado, da visita semestral ao dentista, do uso de aparelho ortodôntico se for necessário, de evitar alimentos cariogênicos, etc).

Gente, como está doendo! Gente, como estes três últimos meses tem sido complicados!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O racional e sensato a fazer é: nunca se auto-medicar

Uma amiga confessou que voltou a tomar Paxil pois não está dando conta do momento dela. Já tomou antes, "então tudo bem". Mas o negócio é que ela não é médica para julgar se esse é o medicamento adequado, se a posologia é adequada, e etc. Ela simplesmente tomou numa época da vida dela que ela identifica com a atual, tem em casa, e voltou a tomar. Ah, e ela é psicóloga. Sei o que muitos que estão lendo estão pensando...

Ela foi casada com um médico, e não é por ter tomado muita porra de médico que alguém consegue registro no CRM, e nem por dar aula de psicopatologia que alguém deve ou pode se automedicar. A percepção que temos de nós mesmas, na hora de escolher a medicação e o esquema de tratamento freqüentemente é distorcida. O pior é que ela entende racionalmente tudo o que eu digo e concorda, pois eu estou absolutamente correta nas minhas afirmações, e faço questão de ser absolutamente direta, e até grosseira, coisa que apenas uma amiga de mais de vinte anos de amizade e que realmente se importa com a outra pode fazer.

Quem não se importa respeita "tempos", se dá ao luxo a ser cheio de dedos, a se calar, a não se intrometer e chamar na chincha. Posso ter uma problema psiquiátrico, mas sou lúcida prá caramba! Mais do que a maioria das pessoas que conheço.

Não devemos tentar solucionar certos problemas sozinhos, nem repetir formulas passadas. Cada momento é único em nossa vida pois é composto de elementos diferentes. Nada nunca é exatamente igual, então o tratamento pode não ser igual. Nosso corpo muda, nossa carga muda (ai, meu D´us, termo de ST! Sai deste corpo que não te pertence!), e por aí vai. Na verdade nos iludimos quando achamos que controlamos alguma coisa. O fato dela não ter um diagnóstico não a coloca numa posição de prescindir do acompanhamento psiquiátrico para a escolha do tratamento medicamentoso adequado. O cara estuda anos, faz residência, especialização, prova para admissão em sociedade de especialistas apenas para isso. A questão não é a proteção à corporação médica, mas o reconhecimento de um saber que ela, psicóloga,ou psicanalista, não domina, e não domina mesmo!!!!!

Ado, ado, ado, cada um no seu quadrado. Ao admitir a necessidade do medicamento, uma pessoa deve admitir a necessidade da assistência do profissional. Há o receio do diagnóstico, da perda de controle da própria vida, e etc. Mas é o preço a pagar pelo tratamento que depois devolve o controle real sobre a própria vida, pois enquanto isso não acontece, a doença, atravéz dos sintomas é quem domina.

Eu não coloco a minha estrutura "obssessiva", "histérica", etc, pela proa, para me esconder de enfrentar as coisas, pois é possível andar dentro das estruturas, elas não são uma clausura. É característica do histérico colocar e alfinetar os recalques do neurótico? Pode ser, mas e daí? Neste sentido, uma vez tratados, somo mais próximos da lucidez do que neurótico que recalca tudo e coloca o escudo da normalidade excessiva. Pra mim isso é um papo besta do caralho.

Ninguém é feliz se escondendo de si mesmo.

Tia Val pontifica: nunca se automediquem, não importa que você seja um médico, um farmacêutico, enfermeiro, psiquiatra, psicólogo ou psicanalista. Quando ficar com o cú na seringa, procure um outro profissional, peça arrego, bata no tatame e enfrente o babado forte. É o mais racional e sensato a fazer, por mais fodão, poderoso, auto-controlado que você se ache, I got news for you, babe: vc é um merda como todo mundo. E isso é normal.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Mengele era dentista? Just kidding

Estou fazendo tratamento dentário por um plano de assistência odontológica desses comuns. Já me tratei privadamente antes, e quer sber de uma coisa? Vou por não ter outro jeito, pois tenho pavor de dentista! É necessidade mesmo. Traumas de infância.

Em "Little Shop of Horrors". Steve Martin cantando Be a Dentist é a imagem perfeita que eu tenho desses profissionais.

"


Agora estou encarando uma clínica geral muito novinha que sempre tenta que u faça obturação sem anestesia, e meu limiar de dor é baixíssimo. Hoje eu quase a mandei tomar no cú. Perguntei se ela gostaria de parto normal ou cesareana: ela respondeu cesareana. Ao que eu respondi, vc gosta de anestesia, mas os outros não? Pimenta no cú dos outros é refresco?

Mas então eu reparei uma coisa: ela não sabe anestesiar, e eu já tenho dificuldades anatômicas que dificultam a anestesia. Então os manés ficam nesse papo de "dor ser algo psicológico apenas. Psicológico o caralho! É neural mesmo!!!

Confesso também que quando ela deu meia ampola para tentar placebo, eu avisei que não havia pegado e ainda ela tascou a broca e doeu, minha vontade foi de dar na cara da filha da puta. O dente vibra e dói o nervo, ora bolas! Eu pedi para ela parar, respirei fundo, os meus olhos se encheram de lágrimas de ódio. Marcamos para a semana que vem essa obturação até boba, mas numa parte muito embaixo do dente, perto da gengiva onde alguém que como eu que já tem sensibilidade dentinária sente mais dor mesmo sofre um bocado. Marcamos dois horários seguidos, e se não der certo eu tento outro dentista!

Tenho colegas dentistas, mas para que eu não venha a odiá-los, eu prefiro não me tratar com eles!<

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Baile a Fantasia.



Queria poder mostrar este quadro a você, mas eu queria mais ainda que pudesses entender o quanto ele é importante para mim. Se chama "Baile à Fantasia", e eu o amo desde que sobre ele pus meus olhos adolescentes, nos meus tenros treze anos quando desajeitada, estranha, mal vestida e completamente em guerra comigo mesma, me lancei a descobrir o mundo para além do eixo taquara-irajá por meio do velho Caxias-Freguesia, o nosso ônibus-bala!

Não tinha quem fosse comigo, meus colegas não se interessavam, então lá ia eu ao Metro Boavista, à visitas guiadas ao Municipal, a entrar no Palácio Pedro Ernesto, ou a simplesmente tentar achar os sítios históricos, colocar a minha pegada sobre a de outros que por lá passara. O perambular pelos corredores do museu me levou àquele quadro quando senti as primeiras dores de amor, a primeira rejeição, a do amor que eu sabia não reconhecido, e menos ainda aceito. E ele encaixou na minha mente como um ideal de amor, inatingível - como cabe a qualquer coisa que se queira ideal. Ah, meu amado, me perdoe a fala arrastada, são os medicamentos que fazem meus pensamentos tombarem uns sobre os outros, ao invés de apenas fluírem. Pensamentos marinheiros que aprendem a nadar na lógica a partir do tombo do navio e do balanço do mar das minhas emoções... que são um bocado convulsas, mas que obedecem ainda assim à uma certa lógica!

Eu senti música. Veio a mim um cheiro forte de perfume, mas de lança-perfume do bom, o antigo rodometálico da Rhodia, de suor de pessoas que tomaram banho cuidadosamente, mas dançavam havia horas, cheiro de maquiagem, de cerveja, de vinho, cachaça, whiskey, cigarros, charutos, cigarrilhas... cheiro de gente se refestelando em coisas que lhes excitam os sentidos. Eu sentio movimento em cada um dos personagens, onde todos estão flexionados como se dançando maxixe, ou um samba bem quebrado juntinho, mais do que uma marchinha qualquer. Os rostos das moças grudados nos ombros dos seus parceiros indicando que elas estavam a inalar lança-perfume de modo nada inocente, e eles também inalavam, daí o langor, o inclinar constante dos corpos que não gargalham, apenas sorriem carinhosamente, sonhadoramente.

O ambiente é sôfrego por mais ardor, por mais delírio, não um desvario drogado, mas por toque humano, é onde eu digo que pintura é música e dança, é pele e é carne, desejo e sedução, é um passeio em estados alterados de consciência sem precisarmos ser psicóticos, ou drogados.

É a fantasia da fantasia que não precisa ser máscara, é incorporar o espírito de por alguns dias simplesmente se entregar a seus próprios desejos de felicidade e prazer, e deixar para queimar tudo na quarta-feira e se purificar, lá no fundo do coração, doido para fazer de novo! É dizer que aquilo não foi real, mas que ao mesmo tempo foi e é real pois são nossos desejos expostos nús e crus, com muito menos limites do que normalmente nós impomos. Ou seja, deixaram o Id à solta e o bagulho tá frenético...

Só que é amor. No sentido erótico e agápico. Num torpor que não posso nem imaginar sem querer me deixar levar em nuvens de lança perfume, e no samba maxixado. Brincar carnaval... eu que nasci às portas das folias de Momo, folia que é uma outra palavra para loucura como estado alterado de consciência ou forma alternativa de perceber a realidade, eu, que aprendi a ver o meu aniversário como um dia de celebrar deusas do mar com muita festa, banquetes, cantos e danças! Ah, quanta languidez! Quanta luxúria! Quanto sonho!

O ideal só o é por não ser real, assim eu afirmo que é melhor que nunca partilhes comigo esse quadro. Vai que não gostes? Vai que eu descubra que não tens um décimo da minha intensidade? O quadro permanecerá encantado, mas tu, meu boto, perderás o encanto.

Quando eu era menina aquela era a minha festa eterna, suavemente encantada, perdida em algum lugar no tempo e achada na minha alma. Só não quero ser uma expectadora, quero dançar também!

domingo, 1 de novembro de 2009

Chagall e judaica... e vestidos de noiva

Eu tinha planejado fazer uma passeio à Ilha Fiscal ou o passeio de escuna pela baía da Guanabara, mas a chuva melou o meu programa. Assim, eu aproveitei o início da tarde para ver a mostra de Marc Chagall que está no Museu Nacional até dezembro. Portanto, quem quiser um bom programa, podem ir e aproveitar.

Para mim foi algo contraditório. Eu adoraria ter dinheiro para ter um Chagall em casa. Não em poster, mas um Chagall mesmo, à vera. A sala de entrada da exposição é de pinturas, e logo a direita de quem entra há uma sala sobre artistas brasileiros influenciados de alguma maneira pela obra de Chagall. À esquerda do salão de entrada, há um salão com gravuras que me tirou o fôlego. Sentei em um banco dourado com estofado alcochoado em vermelho claro e me permiti invadir por dezenas de sensações, e tive de segurar as lágrimas. Se eu fosse milionária eu adoraria comprar todas aquelas obras e montar uma sala apenas para elas, numa forma de apresentação que as valorizasse mais, com locais para que as pessoas pudessem se sentar e apreciá-las com mais tempo. Acho que eu não seria uma simples colecionadora privada. Acho que eu abriria de vez em quando para visitação, com número de senhas para estudantes principalmente, para jovens...

Não precisei olhar as etiquetas que dão o nome das obras e a técnica. As obras eram todas sobre passagens do velho testamento. E eram lindíssimas. Lindas Chagall-wise. Procurei na internet e não achei, mas a moça da banca de livros disse que o catálogo da exposição deve estar a disposição para compra na próxima semana. Que bom!

Miriam dançando para Moisés, Josué diante do Anjo com a espada, Araão e a menorá, Davi, As filhas de Ló, e tantos outros temas... eu pude identificar cada um deles, ainda que a concepção não fosse óbvia. E não era óbvia pois o artista colocou de si, de suas tradições ou da maneira como ele experimentava as suas tradições nelas.

A questão é mais identitária do que religiosa, ainda que haja sim uma coisa religiosa ali latente, a de ser de alguma forma escolhido para algo. Tipo "há apenas um D´us, e nós não acreditamos nele!", diria um judeu ateu! Pois na verdade a maioria dos que eu conheço não é religiosa, ou é tão religiosa quanto os "bota católico aí" na hora de preencher formulário, mas preservam certas tradições porque elas representam a eles mesmos, a sua história familiar, são um referencial do seu lugar no mundo, de onde vieram, onde estão e para onde irão.



Eu amei cada uma daquelas gravuras. Lindas, punjentes, capazes de tocar o coração com uma carga de alma tão intensa que se eu pudesse colocava todos para fora, escurecia a sala e deixava as luzes apenas nelas, acendia o meu cohiba, tomava meu bailey´s e escutava meu mp3 enquanto me deliciava com aquelas imagens tão lindas.

Aliás, se um dia eu enlouquecesse de vez e resolvesse me casar eu iria querer um vestido como esse deste quadro, só que sem o vel. Como ele é carinhoso com o tema namoro e casamento! É de um enlevo sublime, de sonho, sem luxúria, mas cheio de um espírito de comunhão e cuidado mútuo.